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27 de abr. de 2009

Sabe por que eu admiro tanto o Caetano? Porque diferentemente de muitos nomes de sua geração, o tempo não deixou que ele trilhasse o caminho do comodismo. Em meio a polêmicas, boas doses de marketing pessoal, narcisismo e, sim, genialidade, o baiano erra e acerta sem medo. É assim desde o tropicalismo, ele sabe fazer barulho dos bons.

Nos últimos anos, Caetano se envolveu com amigos de Moreno Veloso, seu filho, e lançou dois discos que seguem uma linha jovial e minimalista guiada pelo trio baixo-guitarra-bateria. O primeiro trabalho foi , de 2006. A crítica rachou e a aventura deu o que falar.

O segundo é o recém-lançado Zii e Zie, que traz novamente os companheiros Pedro Sá (guitarra), Ricardo Dias Gomes (baixo) e Marcelo Callado (bateria). A principal diferença em relação ao álbum anterior é que aqui o samba ganha evidência. Não à toa, na capa nebulosa de Zii e Zie aparece o inscrição Transambas. Em várias músicas, Caetano e a banda, pontuada pela guitarra de Pedro Sá, revisitam e desafiam corajosamente o gênero. Isso fica bem evidente nas releituras de Incompatibilidade de Gênios (João Bosco e Aldir Blanc) e Ingenuidade (Serafim Adriano).

Esse embate com o samba é o ponto mais interessante do disco, principalmente se levarmos em conta que o Rio de Janeiro, fonte de inspiração de Caetano e onde as novas músicas foram criadas e ambientadas, vive uma onda de revitalização desse estilo que peca pelo excesso de reverência.

Ainda que Zii e Zie tenha excelentes canções como Perdeu, A Cor Amarela, Lobão Tem Razão e Lapa, a audição é difícil, áspera. Demora para que as lamentações e ironias do autor nos peguem de jeito. A primeira vista, pode parecer um prato cheio para detratores, mas o bom dos discos de Caetano é que nunca há uma verdade absoluta por trás de suas canções. Daqui há alguns anos ainda estaremos discutindo se Zii e Zie é relevante ou se é mais uma piada do velho baiano que anda curtindo uma de garotão.

Sobre o título: Zii e Zie quer dizer tios e tias em italiano. Segundo Caetano, somos todos tios e tias diante dos meninos de rua que fazem malabarismo nos sinais de trânsito do Rio. Hum... Foi só a mim que a idéia não agradou?

Outro detalhe pouco comentado e muito importante sobre Zii e Zie é que ele é resultado da incursão (atrasada para alguém gosta tanto de exposição) de Caetano pelo mundo blogueiro. No projeto Obra em Progresso, o público participou ativamente da criação desse disco, viu cada música sendo parida e pode opinar, criticar e debater assuntos diversos diretamente com o músico.

UPDATE: Baixe Zii e Zie agora!

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4 comentários:

Rany disse...

Gosto do Caetano sem qualquer compromisso com fases...ele veste a camisa tropicalista, simples assim. Pega daqui e dali o que acha melhor e monta coisas novas, vai se adequando com o que vem. Isso é ser um artista antropofágico! O Obra em Progresso foi uma sacada até à frente do que muitos artistas "moderninhos" poderiam pensar. Ok que ele tem todo o respaldo, né, afinal, é o Caetano compondo. Mas a iniciativa foi única, mesmo.

Boa música!

Marcio disse...

Rany, acho q temos que ser justos. Caetano é um artista sempre além dos outros, mas a sacada de levar Obra em Progresso para a internet foi do Hermano Vianna. Não diminui em nada a coragem do Caetano em topar e entrar de cabeça, mas a ideia foi do Hermano.

PH, eu gosto de quase tudo o que o Caetano produz, gostei do disco, mas esperava um pouco mais. Gostei pra caramba de Lobão tem Razão e A Cor Amarela, mas até agora não entendi o sentido da fraca - e meio burocrática - releitura de Incompatibilidade de Gênios. Quando chega na metade da música eu já tô com vontade de quebrar aquela guitarra, rs.
Mas é o que a imprensa gosta de falar do Woody Allen quando ele lança filme: um disco fraco do Caetano ainda é melhor do q a esmagadora maioria dos discos por aí.

Juciêr disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Juciêr disse...

É um disco difícil de engolir de primeira. Mas a partir da segunda audição o disco começa a mostrar a que veio e você começa a ver que é um álbum tipicamente caetano, com todas as suas citações e seus jogos de palavras. Perdeu é uma música crua e choca. Vi em um site que seria um meu guri de caetano veloso. Só que diferente de Chico, que tenta emocionar em meu guri, caetano tenta chocar. e consegue. Quer frase mais arrepiante do que "o sol se pôs, depois nasceu e nada aconteceu"?
Gosto bastante de A cor amarela e Lobão tem razão. É bonito ver como eles querem deixar tantos anos de briga de lado. Menina da ria é divertidíssima e Sem cais é clássica e elegante.
Acho que o arranjo quadrado de incompatibilidade de gênios foi pensado dessa forma para fazer o contraponto com a versão de João bosco, cheia de molejo. E acho que nada mais caetano do que terminar o disco de transambas - ou transrocks - com uma música como diferentemente, que mais parece bossa nova.
O resultado é um disco absolutamente genial, como tudo que Caetano faz.