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28 de mar. de 2010

O comentário vem meio atrasado, mas não dá para deixar de comentar mais uma passagem do Franz Ferdinand pelo Brasil. Pelo menos aqui no Rio, os shows anteriores foram considerados antológicos, e de tanto lamentar minha ausência nessas ocasiões, decidi que não poderia perder mais uma apresentação dos escoceses.

Mas eu não vou me prender ao show dos caras para não cair em obviedades. Basta ouvir um pedacinho de cada um dos três álbuns lançados até o momento para sacar que as músicas são irresistíveis ao vivo, mesmo que o repertório do primeiro disco homônimo ainda chame mais a atenção e tenha a preferência do público.

Passado o frisson do momento e diante do que representa o Franz Ferdinand, comecei a pensar um pouco sobre a cara do universo pop roqueiro da última década. Numa rápida pesquisa pela internet, dá pra perceber que a discussão pega fogo, e não é de hoje! Afinal, qual é a cara do som dos anos 2000? Será que dá pra apontar tendências e nomes dominantes nesta primeira década?

Nesse boteco musical, existem basicamente dois grupos na roda de discussão: os que superestimam o Strokes e as dezenas de bandas-sensações da década, entre elas o Franz Ferdinand, e os que subestimam o Strokes e tudo que veio depois. Nesse segundo grupo, há quem ache que o Radiohead ainda é maior banda da Terra (se é que um dia ela foi) desde a cena grunge.

Tenho comigo alguns parâmetros:

1 - Não devemos cair no erro primário de comparar artistas de épocas diferentes. A indústria mudou e a forma de consumir música também mudou radicalmente. Ponto óbvio.

2 - Não existem bandas salvadoras ou unanimidades, mas há discos emblemáticos e bem legais de nomes que em algum momento foram apontados como sensação. Não faltam exemplos. Temos o Is This It, do Strokes; Fever to Tell, do Yeah Yeah Yeahs; Up the Bracket, do Libertines; Song for the Deaf, do Queens of the Stonage; Dear Science, do TV on the Radio; Funeral, do Arcade Fire; Elephant, do White Stripes e, finalmente, o álbum homônimo de estreia do Franz Ferdinand. Só para provocar, eu incluiria nessa lista discos de Kaiser Chiefs, Kasabian, Arctic Monkeys, Vampire Weekend e, para meu contragosto, Coldplay.

3 - A diferença entre franca inspiração e cópia também dá muito pano pra manga. Quantos emuladores de Joy Division existem por aí? E de Beatles? E de Nirvana? E de New Order? E de Talking Heads? Até que ponto devemos ser tão rigorosos com esse excesso de reverência? Tem muito artista genial na história que conseguiu imprimir uma marca pessoal em meio a trocentos clichês do gênero pop rock. Confesso que já fui mais radical com isso.

Eu fico com as bandas citadas acima, mas ainda assim faltam artistas com carreiras mais sólidas e relevantes. Duvido que alguém não tenha torcido o nariz para algum nome dessa listinha feita de uma hora pra outra. Eu mesmo torci, veja só: o Coldplay tem uma carreira muito consistente, mas o som e a postura da banda estão longe de serem as mais instigantes do mundo. Pelo menos pra mim. E naturalmente eu deixei de lado gente muito boa pra concentrar num cenário roqueiro, mas de veia pop.

Foto: Agência O Globo.

23 de mar. de 2009

A notícia já é velha, mas vale um comentário aqui no blog. A maior comunidade para baixar discos do Orkut foi obrigada a encerrar suas atividades no dia 15 deste mês e evidentemente a polêmica sobre os downloads irrestritos voltou à tona. Os moderadores foram ameaçados pela APCM (Associação Anti-pirataria Cinema e Música) com base em medidas legais. A APCM representa grandes conglomerados da mídia que condenam o compartilhamento de arquivos de música e filmes na internet e se propõe a botar ordem na chamada "farra dos downloads".

Dizem que quem baixa um disco, por exemplo, está deixando de pagar pelo trabalho de muita gente. Por enquanto, isso pode até ser verdade. Mas o que todo mundo já percebeu é que a lógica da indústria está mudando e o papel das gravadoras que conhecíamos está ultrapassado. Há quem diga que o caminho natural delas é se tornarem cada vez mais parecidas com produtoras e agências de marketing. Hoje ninguém precisa pagar para ter um i-pod abarrotado de música, mas as redes de compatilhamento potencializam imensamente o interesse por conhecimento e criam uma verdadeira mina de oportunidades para quem lida com esse negócio. Os tempos mudaram, boas iniciativas rentáveis surgem a todo momento e só bate cabeça quem se finge de burro.

Eu até acreditava que essa linha de pensamento beirava a ingenuidade, mas não. A manutenção da indústria como conhecemos é pior, pois só interessa a quem já está muito rico com ela, e nisso se incluem até artistas e cineastas consagrados. Quem está começando agora quer mais é ver sua obra se espalhando sem restrições logísticas e financeiras. O lucro vem de outras maneiras. A cabeça é outra.

E claro, a polêmica não se restringe aos pontos levantados aqui. A questão dos direitos autorais, por exemplo, é bastante complexa e merece uma revisão diante dessa “nova ordem” na indústria da arte e do entretenimento.

Não demorou para que a comunidade Discografias ressurgisse sob o nome "Discografias - O Retorno", com novos moderadores. E se a primeira tinha quase 1 milhão de membros, a nova está chegando a 50 mil com menos de duas semanas de existência. Qual será a próxima medida da APCM e companhia? Exterminar todas as redes de compartilhamento, todas os blogs que postam links para downloads e todas as comunidades de troca de arquivos do mundo? Haja lobby!

O blog do Pedro Alexandre Sanches, jornalista de primeiríssima linha, é um prato cheio para quem quiser ler mais sobre o assunto. Recentemente, ele fez uma entrevista imperdível com Pena Schimidt, ex-executivo, diretor e produtor de gravadoras multi-nacionais. O fim da Discografias está na pauta. 

17 de dez. de 2008

O Fala Vitrola! estava empoeirado, fechado pra obras, como sempre. Após quase seis meses de abandono, tento retomar minhas atividades. Quem ainda lê o blog já deve ter percebido que a preguiça sempre impera na hora de engrenar as postagens. Portanto, sem pretensão alguma, bem devagar, estou de volta.

Já que estamos no fim de 2008, que tal falar de alguns lançamentos que marcaram o ano?

Aqui no Brasil, a aguardada estréia solo do ex-Los Hermanos Marcelo Camelo finalmente saiu. A crítica e os fãs do barbudo adoraram o álbum Sou, título que de cabeça pra baixo se lê "nós". Eu achei o resultado absolutamente previsível. O trabalho é exatamente o que todos esperavam do compositor: Violão, banquinho, despretenção, intimismo, marchinhas... Até as viagens instrumentais do Hurtmold, a luxuosa banda de apoio, caem como uma luva na chatice do hermano. Como diria o Lobão, uma paumolescência só.

Aliás, vamos ao momento fofoca: O Camelo merece o título de mané do ano, convenhamos. Fez um disco de canções de ninar e caiu de amores por Mallu Magalhães, a cantora de 16 anos que canta a obra inteira de Bob Dylan e Johnny Cash, mas ainda tropeça na própria língua quando abre a boca. E pior: Fontes confiáveis garantem que a ex do Camelo é um excelente partido, gente finíssima, linda, etc. Enfim, um parágrafo irrelevante.

Rodrigo Amarante, parceiro de Camelo na ex-banda, também mergulhou em outro projeto. Foi de mala e cuia para os EUA e se juntou a Fabrizio Moretti, baterista do Strokes, e a Binki Shapiro, cantora e namorada de Moretti. Os três formaram o Little Joy e acabam de lançar álbum homônimo. O resultado não chega a ser animador, mas o tipo de som é bem mais surpreendente do que a empreitada de Camelo.

Bacana mesmo é o disco do Tom Zé (foto 1). O baiano lançou o último capítulo da sua "trilogia" da música brasileira. Depois de Estudando o Samba (1976) e Estudando o Pagode (2003), ele apresenta ao mundo Estudando a Bossa. Parece oportuno e pode até ser. Mas o disco é bom demais, como tudo que Tom Zé anda fazendo nos últimos anos. As músicas abusam da metalinguagem com muito humor e ironia, marcas da obra do compositor. E ainda tem as participações de Mônica Salmaso, Marina De La Riva, Fernanda Takai, David Byrne e quatro parcerias com Arnaldo Antunes. Um bom exemplo do olhar de Tom Zé sobre a bossa é esse trecho da letra de João nos Tribunais:

Se João Gilberto/ tivesse um processo aberto/ e fosse nos tribunais/ cobrar direitos autorais/ de todo o samba-canção/ que com a sua gravação/ passou a ser bossa nova,/ qualquer juiz de toga,/ de martelo e de pistola,/ sem um minuto de pausa/ lhe dava ganho de causa./ "Chega de saudade" – veja o caso deste sama/ gravado em 58/ por Elizeth Cardoso,/ "pela pátina crestado":/ Vinícius ficou gamado./ 0 biscoito da Cardoso/ foi divino, foi gostoso,/ mas era um samba-canção lindo/ e nunca passou disso não.

Agora vamos sair do Brasil. Uma banda que ainda é pouco falada por aqui, mas desde 2006 é sensação na Inglaterra é o The Kooks (foto 2). O nome é inspirado numa música de David Bowie do álbum Hunky Dory (1973). Esse foi só o primeiro ponto pra banda. Neste ano eles lançaram Konk. O trabalho é um prato cheio para animar festinhas e levantar multidões com um rock’n’roll direto, cheio de refrões grudentos e capaz de agradar a todos os gostos, até porque, pra quem sabe o signifificado de um bom rock, essas característicias não diminuem a competência de ninguém!

Entre as mulheres, tivemos uma onda de "aspirantes" a Amy Winehouse. Pelo menos é o que a mídia martelou por aí. Se 2007 foi a consagração popular da talentosa aloprada, 2008 foi o ano da busca pela sucessora. A indústria musical é oportunista e curte humor negro. Se Amy bater as botas, quem vai ocupar sua lacuna? Algumas cantoras surgiram com muita personalidade, outras nem tanto. Quem tomou de assalto as paradas foi a galesa Duffy. O hit Mercy é irresistível, assim como a maioria das faixas de Rockferry, o debut da cantora. Mas não sei, as referências muito explícitas ao soul e a produção que conserva um clima retrô me dão a sensação de que estou diante de um prato requentado... Mesmo assim, vale a pena conferir.

A inglesa Adele (foto 3), outra estreante de 2008, não vai pelo mesmo caminho de Duffy. Assim como a galesa, ela foi logo chamada pela imprensa britânica de “a nova Amy Winehouse”, mas a comparação não procede. O som de 19, seu primeiro álbum, é bem diferente de qualquer música de Amy e, ao contrário do trabalho de Duffy, aponta pro futuro, e não pro passado.

E por falar em jazz, o que vocês acharam das atrações do Tim Festival deste ano? O evento foi considerado o mais fraco das últimas edições e ainda teve duas baixas decisivas às vésperas do evento: a banda americana The Gossip e o inglês Paul Weller. Mas muita gente conheceu a contra-baixista e cantora de jazz americana Esperalza Spalding. Não fui a nenhum show e nem a conhecia, mas assim que ouvi o álbum Esperanza, há cerca de três semanas, bateu um arrependimento enorme. Ela é imperdível. As músicas flertam com vários estilos, inclusive a MPB e o pop. Em Esperanza, ela abre o álbum com Ponta de Areia (Milton Nascimento e Ronaldo Bastos) e encerra com Samba em Prelúdio (Vinícius de Moraes e Baden Powell). Tudo em português impecável e com originalidade de sobra. Body and Soul aparece em versão em espanhol. Entre as composições próprias, que predominam no trabalho, I Know You Know é a melhor, com muito suingado e flerte ao universo pop.

E ainda teve muita coisa que rolou. O ano que está no fim ainda rende muitos posts... Aguardem!

Fotos: Divulgação.